1.Augustini - Quid tibi
videmur efficere velle, cum
loquimur?1.Agostinho - O que
compreendes desejarmos
fazer ao falarmos24?
2.Adeodatus - Quantum
quidem mihi nunc occurrit,
aut docere aut discere.2.Adeodato – Pelo quanto
agora me ocorre, ensinar ou
aprender.
3.Augustini - Unum horum
video et assentior: nam
loquendo nos docere velle
manifestum est; discere autem
quomodo?3.Agostinho - Compreendo e
assinto com um destes, pois
falando estaria manifesto
desejarmos ensinar, por outro
lado, como aprender?
4.Adeodatus - Quo tandem
censes, nisi cum
interrogamus?4.Adeodato – Como opinas
então, senão ao
interpelarmos25?
5.Augustini - Etiam tunc
nihil aliud quam docere nos
velle intellego; nam quaero
abs te, utrum ob aliam
causam interroges, nisi ut
eum, quem interrogas, doceas,
quid velis?5.Agostinho – Ainda, nesse
caso compreendo nada
diverso desejar que não
ensinar. Te arguo se
porventura terias outra causa
para interpelar a alguém, que
não ser ensinado sobre o que
desejas?
6.Adeodatus - Verum dicis.6.Adeodato - Dizes a
verdade!
7.Augustini - Vides ergo iam
nihil nos locutione nisi, ut
doceamus, appetere.7.Agostinho - Vêdes agora
certamente, que com a
locução nada mais desejar que
não ensinar.
8.Adeodatus - Non plane
video; nam si nihil est aliud
loqui quam verba promere,
video nos id facere, cum
cantamus. Quod cum saepe
soli facimus nullo praesente,
qui discat, non puto nos
docere aliquid velle.8.Adeodato - Não tão claro
assim compreendo; se falar
nada mais fosse que palavras
proferir, ao cantarmos isto se
faz. Dado que
frequentemente a sós o
fazemos e sem audiência,
considero com isso não
desejar ensinar.
9.Augustini - At ego puto
esse quoddam genus docendi
per commemorationem,
magnum sane, quod in hac
nostra sermocinatione res ipsa
indicabit. Sed si tu non
arbitraris nos discere, cum
recordamur, nec docere illum,
qui commemorat, non resisto
tibi, et duas iam loquendi
causas constituo, aut ut
doceamus aut ut
De Magistro
9.Agostinho – Contudo26 de
grande valor julgo ser essa
condição de ensino por
rememoração27, que aqui por
si a nossa conversa per si
indicará28. Mas, se tu não
julgas aprender ao rememorar
e tampouco rememora aquele
que ensina, não te contesto.
Agora, instituo duas causas
para a locução, ou ensinar ou
rememorar quer em outros
commemoremus vel alios vel
nos ipsos, quod etiam, dum
cantamus, efficimus; an tibi
non videtur?quer em nós mesmos, como o
fazemos ao cantarmos. A ti
assim não seria
compreendido?
10.Adeodatus - Non prorsus;
nam rarum admodum est, ut
ego cantem commemorandi
me gratia, sed tantummodo
delectandi.10.Adeodato - Não
especificamente, raro seria
que se desse à rememorar;
mas sim advém do encanto no
canto.
11.Augustini - Video, quid
sentias. Sed nonne adtendis
id, quod te delectat in cantu,
modulationem quandam esse
soni? Quae quoniam verbis et
addi et detrahi potest, aliud
est loqui, aliud cantare; nam
et tibiis et cithara cantatur, et
aves cantant, et nos interdum
sine verbis musicum aliquid
sonamus, qui sonus cantus
dici potest, locutio non
potest; an quicquam est, quod
contradicas?11.Agostinho - o que
ajuízas29 compreendo, mas
não atentarias que aquilo que
no canto deleita, seria certa
modulação do som? Desde
que se possa adicionar ou
subtrair palavras, uma coisa
seria falar, outra cantar.
Efetivamente ao som de
flautas e cítara se canta; os
pássaros cantam e mesmo nós
alguma música sem palavras
entoamos, que sons de canto
se poderia chamar, contudo
locução não. Objetarias algo?
12.Adeodatus - Nihil sane.12.Adeodato - Seguramente
nada.
13.Augustini - Videtur ergo
tibi nisi aut docendi aut
commemorandi causa non
esse institutam locutionem?13.Agostinho - Por
conseguinte compreenderias
dessa forma, que a locução se
instituíria senão para ensinar
ou rememorar?
14.Adeodatus - Videretur,
nisi me moveret, quod, dum
oramus, utique loquimur, nec
tamen deum aut doceri
aliquid a nobis aut
commemorari fas est credere.14.Adeodato -
Compreenderia a não ser pelo
que me preocupa, que ao
orarmos sobretudo falamos,
porém justo não creria a Deus
poder ensinar ou rememorar.
15.Augustini - Nescire te
arbitror non ob aliud nobis
praeceptum esse, ut in clausis
cubiculis oremus, quo nomine
significantur mentis
penetralia, nisi quod deus, ut
nobis, quod cupimus,15.Agostinho - Ignoras a lei
que nos prescreve não
proceder de forma outra que
não a nos compungir na
clausura de nosso coração30,
para que a oração em nossa
mente penetre31. Não
praestet, commemorari aut
doceri nostra locutione non
quaerit. Qui enim loquitur,
suae voluntatis signum foras
dat per articulatum sonum,
deus autem in ipsis rationalis
animae secretis, qui homo
interior vocatur, et
quaerendus et deprecandus
est; haec enim sua templa esse
voluit. An apud apostolum
non legisti: «Nescitis quia
templum dei estis et spiritus
dei habitat in vobis» et «in
interiore homine habitare
Christum»? Nec in propheta
33
observastes a recomendação
do profeta: Falai dentro de vossos
corações e compungi-vos em vossos
aposentos; oferecei sacrifícios de
justiça e esperai no Senhor? 32
Senão, como poderia Deus
nos ensinar ou rememorar
para alcançar aquilo que pelo
elóquio almejamos. Sem
dúvidas, quem fala expõe
signos33 volitivos por sons
articulados. A Deus se deve
racionalmente no íntimo da
alma procurar e suplicar, ao
invocar aquele homem
interior34, considerado como o
animadvertisti: «Dicite in
cordibus vestris et in
cubilibus vestris
conpungimini. Sacrificate
sacrificium iustitiae et sperate
in domino»? Ubi putas
sacrificium iustitiae sacrificari
nisi in templo mentis et in
cubilibus cordis? Ubi autem
sacrificandum est, ibi et
orandum. Quare non opus est
locutione, cum oramus, id est
sonantibus verbis, nisi forte,
sicut sacerdotes faciunt,
significandae mentis suae
causa, non ut deus, sed ut
homines audiant et
consensione quadam per
commemorationem
suspendantur in deum; an tu
aliud existimas?seu templo. Não lestes no
Apóstolo?: Não sabeis que sois
templo de Deus e que o Espírito de
Deus habita em vós - Christus
habita o homem interior?35 Onde
supões ofertado seja o justo
sacrifício que não no templo
da mente e no íntimo do
coração? A quem se ora
também o sacrifício se faz,
pelo que, ao orarmos não
fazemos soar as palavras, a
não ser por acaso, como
fazem os sacerdotes que
expressam seu pensamento
não para Deus, mas para os
ouvintes a fim de que através
da rememoração se elevem a
Deus. Ou tu de forma diversa
julgarias?
16.Adeodatus - Omnino
assentior.16.Adeodato – Inteiramente
aprovo.
17.Augustini - Non te ergo
movet, quod summus
magister, cum orare doceret
discipulos, verba quaedam
docuit, in quo nihil aliud
videtur fecisse quam docuisse,
quomodo in orando loqui
oporteret?17.Agostinho - Não te
impressionas que o supremo
Mestre tenha ensinado seus
discípulos a orar, ensinando
por palavras, nada mais a
desejar que ensinar o como
deveriam se expressar ao
rezar?
18.Adeodatus - Nihil me
omnino istuc movet; non
enim verba, sed res ipsas eos
verbis docuit, quibus etiam se
ipsi commonefacerent, a quo
et quid esset orandum, cum in
penetralibus ut dictum est
mentis orarent.18.Adeodato - Nada
inteiramente me demove,
posto Ele não ensinasse
palavras, mas as próprias
coisas por palavras, para que
soubessemos a quem, a que
seria a oração e, o como
penetrar na mente aquilo
que ao orarem era dito.
19.Augustini - Recte
intellegis; simul enim te credo
animadvertere, etiamsi
quisquam contendat, quamvis
nullum edamus sonum,
tamen, quia ipsa verba
cogitamus, nos intus apud
animum loqui, sic quoque
locutione nihil aliud agere
quam commemorare, cum
memoria, cui verba inhaerent,
ea revolvendo facit venire in
mentem res ipsas, quarum
signa sunt verba.19.Agostinho –
Corretamente captastes.
Ademais, ao mesmo tempo
creio teres pressuposto que
mesmo sem emitir sons, nós
refletimos sobre as palavras
e falamos no íntimo de
nossa alma. Assim, com a
locução nada fazemos a não
ser evocar à memória36,
fazendo-a agir e
rememorando37 a mente as
próprias coisas das quais são
signos as palavras.
20.Adeodatus - Intellego ac
sequor.20.Adeodato - Entendo e
aceito.